conceito
MUNDOS LOCAIS é uma iniciativa concebida para o Centro Cultural de Lagos (CCL), no âmbito da 2.ª edição do ALLGARVE e propõe uma plataforma de reflexão sobre a diversidade cultural que caracteriza as cidades de hoje através da produção artística mais recente. O projecto envolve o Centro Cultural de Lagos e a Fortaleza Pau da Bandeira, e conjuga uma exposição de arte contemporânea com uma programação transversal que cruza as artes visuais com as artes performativas.
Os trabalhos seleccionados exploram a relação entre o local e o global, atentos ao modo como as experiências de viagem, migração e deslocação alteram as percepções da identidade, cultura e nação. As representações do mundo, sobretudo as referências às viagens pelo mundo e às relações com ex-colónias portuguesas, aparecem como elementos fortes da cultura urbana de Lagos, e formam o imaginário dos “descobrimentos”, marcados por uma “nostalgia do império” histórica. Em contraste, os novos media artísticos e os trabalhos performáticos na exposição exploram os temas da migração e viagem a partir de uma perspectiva com múltiplos centros. O olhar de múltiplas-vistas, que decorrente de estratégias diaspóricas, parece convir mais ao momento pós-colonial, bem como a mudança de perspectiva ao abordar o “Império” a partir do presente.
A título de exemplo destacamos o artista Francisco Vidal, nascido em Lisboa com ascendência africana, que apresentará Again, again and again! 500 outras coisas (2008). Trata-se de uma instalação de grandes dimensões, com impressões sobre tecido, onde se interroga o “império português” através de um jogo de repetições seriais de faces e padrões, incluindo ainda um vídeo que documenta a performance das 500 impressões sobre tecido – o mesmo número de vezes a que correspondeu a história da colonização –, fazendo eco da pergunta: quanto da história imperial é uma repetição de clichés?
Por sua vez a artista radicada em Lisboa e Londres, Mónica de Miranda, criou Back Pack Paradise (2007-2008): um tríptico fotográfico que documenta uma inscrição performática de mapas e paisagens exóticas no seu próprio corpo, os mesmos mapas que representam a expansão imperialista e o movimento transnacional de pessoas e medias que caracteriza a actualidade. A artista desafia o próprio acto de identificação ao voltar as suas costas para a câmara, negando o processo formal de admissão a um país. Enquanto identidade sem rosto – simultaneamente artista e migrante – surge a pergunta: ser-lhe-á permitida a entrada?
Finalmente, o caso de Claúdia Cristóvão, portuguesa nascida em Luanda (Angola), ela própria ainda hoje em constante deslocação, vivendo entre Londres e Amesterdão. O seu trabalho debruça-se sobre a condição diaspórica dos que se encontram entre um e outro lugar. Na instalação-vídeo de múltiplos écrãns intitulada Fata Morgana (My África) (2008), ensaia-se a visualização polifónica do “império” enquanto projecto de uma nação e parte de um imaginário colectivo parcialmente interrompido com a “Revolução de 1974”. O trabalho é desenvolvido a partir de entrevistas feitas aos filhos dos “retornados”, que nasceram em África antes de 1974 mas que tiveram que deixar o continente assim que o processo de descolonização arrancou. Já adultos que cresceram longe do seu país de origem, cada um fala sobre uma África que mal experienciaram, juntando múltiplos pontos de vista de uma África que possuem nos seus corações mas na qual pouco viveram. Projectando as suas visões sobre o fundo de uma miragem, estes testemunhos tentam preencher o hiato provocado pelo processo de (des)colonização com a miragem de uma África utópica.
Muitos dos artistas que convidámos a participar nos nossos MUNDOS LOCAIS têm uma produção multidisciplinar a que fazia sentido dar visibilidade, e assim desdobrámos o projecto numa programação que é transversal e que se realizará ao longo dos meses de Junho, Julho e Agosto, de modo a dar a ver a pluralidade de estratégias criativas que actualmente privilegiam a dinâmica do local. Neste conjunto multidisciplinar de iniciativas incluem-se instalações site-specific, concertos, performances, conversas e ciclos de filmes.
Por exemplo, com Laranjas (2008), a portuguesa Inês Amado (há muito a residir em Londres), povoa um dos espaços do Forte Pau da Bandeira com laranjas, tornando-o um espaço de oferenda para os visitantes. Dispostas no chão, as laranjas estão rodeadas por uma paisagem sonora de uma viagem pelo rio Tamisa, produzida em colaboração com o artista Dave Lawrence (também ele residente em Londres), e evoca a longa viagem desta fruta pelo mundo. Os visitantes encontrar-se-ão imersos num “mar” de laranjas, no qual têm de entrar para experimentarem o som e o aroma. Aí se confrontará o corpo com o fruto que, noutros países, é sinónimo de Portugal e que em Lagos cresce nas ruas da cidade. Na instalação, a laranja é tornada um objecto relacional, um fruto que simboliza as viagens da globalização terrestre e a hibridização de culturas decorrentes de trocas de alimentos nas viagens coloniais. Como a artista nos lembra, a laranja inicialmente veio para Portugal oriunda de países árabes (era comestível, mas amarga). Só depois da viagem do navegador Vasco da Gama é que foram introduzidas em território nacional as “laranjeiras da China”, que dão as laranja doces, sendo a terceira vaga de laranjas já exportadas pelos portugueses pelo mundo fora.
Em Junho há essencialmente espectáculos e performances, destacando-se o concerto-instalação de Tiago Cutileiro e Jorge Pereira, especialmente concebido para a inauguração dos MUNDOS LOCAIS no dia 13 de Junho, às 22h. Designada Allmnésia, esta intervenção dos artistas (residentes em Lagos) Tiago Cutileiro e Jorge Pereira é composta por imagens e sons recolhidos em diversas cidades algarvias e sintetiza as rápidas mutações a que o espaço está a ser submetido, como resultado do crescimento económico da região do Algarve, maioritariamente dominado por hotéis de luxo. Projectada no pátio interior do Centro Cultural de Lagos, durante a primeira hora da inauguração, esta intervenção audiovisual reflecte sobre a produção e disrupção da memória associada às alterações espaciais.
Julho é o mês das palestras dos artistas, incluindo um workshop sobre “arte colaborativa e participatória”, coordenado pela artista Mónica de Miranda e com a participação do curador da Tate Britain e geógrafo Paul Goodwin e do artista Faisal Abdullah. Há também uma apresentação dos artistas do LAC – Laboratório de Actividades Criativas (um colectivo que tem dinamizado a antiga prisão de Lagos), e um debate sobre a situação artística no Algarve, moderado pela artista e professora universitária Susana de Medeiros (no dia 29 de Julho, às 22h).
Em Agosto o Auditório do CCL acolhe um ciclo de cinema que se realiza nos dias 4 e 5 e depois novamente nos dias 25 e 26, reunindo um conjunto de filmes e documentários sobre temáticas correlacionadas: desde a língua como cultura e matéria criativa no campo da música, ao modo como Portugal é visto pelos “novos portugueses” de diferentes ascendências e pelos imigrantes, passando pela experiência SAAL em Lagos e o que ficou desse projecto comunitário, até às diferentes abordagens da indústria cinematográfica da Lagos nigeriana, para além de dois documentários que fazem uma ligação directa aos artistas António Ole e Ângela Ferreira.
Por último, não podemos deixar de referir o projecto que Susana Guardado apresenta no dia 23 de Agosto no espaço do LAC, cruzando a sua actividade de artista plástica com a de Dj, e antecipando a grande festa lacobrigense que todos os anos em meados de Agosto reclama para si o espaço público como espaço de encontro. Esse é também o grande objectivo dos “mundos locais”: tornar-se um espaço de encontro para debater os diferentes mundos que constituem os locais de hoje. Até Lagos!
Lúcia Marques e Paula Roush
curadoras do projecto MUNDOS LOCAIS