Ângela Ferreira

Casa de Colonos Abandonada, 2007, de Ângela Ferreira
Uma casa abandonada na ilha de Benguerra, arquipélago do Bazaruto. Uma ilha idílica situada a poucos quilómetros da costa sul de Moçambique. Uma casa que nunca foi acabada. Que aparenta ter sido estranhamente abandonada no momento em que toda a sua estrutura de betão estava completa. Não houve tempo para acabamentos, não há sinais de alguma vez ter havido caixilhos ou portas ou vidros nas janelas. As paredes nunca foram rebocadas, ficando cinzentas de cimento e textura de lixa. Estão cobertas de escritos a carvão e outros graffiti rurais. Uma espécie de carcaça oca, estrutura simbólica com ar de pertencer a subúrbios citadinos mas instalada numa ilha quase deserta. Tem tudo o que necessita para se poder identificar como arquitectura doméstica: o número de divisões, tecto e cobertura, e até mesmo a varanda. As formas são suficientemente definidas para se poder identificar o estilo e a linguagem formal. Mais um bizarro clássico da arquitectura modernista em África, que provavelmente data dos anos sessenta ou setenta. Uma estrutura de linhas simples, com grandes janelas panorâmicas desenhadas para permitir a continuação do exterior para o interior e vice-versa. Algumas adaptações africanas, como a necessária versão alargada da varanda e ainda alguns detalhes escultóricos quase surreais ou tropicais que se sobrepõem à fachada do edifício. Os únicos sinais de destruição são aqueles que os vendavais e ciclones deixaram. Uma casa de colonos abandonada?
ÂNGELA FERREIRA nasceu em Maputo (Moçambique), em 1958. Vive e trabalha em Lisboa (Portugal) e na Cidade do Cabo (África do Sul) desde 1992. A sua obra tem-se debruçado sobre a história enquanto construção, reflectindo sobre questões do foro político, o uso das teorias – com uma atenção particular às teorias da história da arte – e a relação e impacto destas na arte contemporânea. Expõe regularmente desde 1990. Das suas exposições individuais destacam-se: Ângela Ferreira, Centro de Arte Moderna – Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa (1990); Sites and Services, South African National Gallery, Cidade do Cabo (1992); Double Sided I and II, Chinati Foundation, Marfa, e Ibis Art Centre, Nieu Bethesda (1996); Casa Maputo: Um Retrato Íntimo, Museu de Serralves, Porto (1999); Em Sítio Algum, Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado, Lisboa (2003), Maison Tropicale, representação portuguesa na La Biennale di Venezia, Veneza (2007); e Hard Rain Show, Museu Colecção Berardo, Lisboa (2008).