Eduardo Matos

Salgueiros – As cidades novas, 2005-2006, de Eduardo Matos

Uma notícia de jornal dava conta de um terreno baldio, existente na cidade, um espaço encravado entre edifícios urbanos e uma via rápida de automóveis, falava de um lago e de uma intensa flora que tinha crescido espontaneamente a sua volta; arbustos, plantas e flores que formavam uma espécie de barreira ao exterior e que dava a ideia de se tratar de um micro-ambiente.
Curioso com o local, por lá fui passando e, sem guião e sem pressas, por lá estive à espera que desse trabalho surgisse então o trabalho.
Pese embora a notícia de jornal caracterizar bem o lugar, esta não dava conta de tudo o que ali acontecia, existiam outras coisas. O pequeno lago com a sua orla verdejante era também uma lixeira, pessoas iam para lá pescar, famílias passeavam-se aos fins de semana, é zona de consumo de drogas, uma espécie de recreio onde crianças brincam e adultos se divertem, local de assaltos e de operações stop da policia. O negócio do lixo tem ali uma intensa actividade.
As pessoas que lá passavam o seu dia ou umas horas inquietavam-me. Não me sentia propriamente à vontade com aquilo e não pensava sequer em fazer perguntas. Imagino que se estavam ali, é porque queriam estar sozinhas e gostavam das coisas da natureza. Estes lugares são óptimos para isso, ninguém faz perguntas, o silêncio é regra, afinal de contas, a cidade estava mesmo ali nas nossas costas.

EDUARDO MATOS nasceu no Rio de Janeiro (Brasil) em 1972. Vive e trabalha no Porto (Portugal). Formou-se em Artes Plásticas – Pintura pela Faculdade de Belas Artes, Universidade do Porto. Trabalha desde 1999 como artista plástico e comissário de exposições. No seu percurso tem vindo a desenvolver trabalhos onde cruza a linguagem imagem/vídeo/escultura com a tridimensionalidade espacial e interactuante das instalações, reconstruindo e desconstruindo especificamente em cada lugar e a cada momento as peças que compõem o simulacro de um jogo de metáforas estéticas, identitárias, sociais, políticas e geográficas. São elementos e fragmentos que recolhe do universo civil: dos seus códigos, das suas normas e regras, dos acontecimentos, da história. São imagens, símbolos, objectos e fragmentos que inscreve num espaço, numa composição. Procura relacioná-los entre si. Não são narrativas ou descrições, são imagens descontínuas que constroem realidades, que questionam os processos de organização, orientação, gerência, direcção e aprendizagem, inerentes a esta ideia de sociedade moderna democrática. Foi membro fundador do Salão Olímpico (projecto independente para as artes plásticas), que em 2007 edita, juntamente com José Maia, o Museu de Arte Contemporânea Serralves e o Centro Cultural Vila Flor, o livro Salão Olímpico 03/2006 e as exposições “Busca Pólos”.



projecto desenvolvido no ambito do programa ALLGARVE